Quarta-feira, 12 de Março de 2008


Assista o filme American Beauty. Se já o fez, leia aqui a minha crítica a este filme e, se quiser, comente.

O filme "Beleza Americana", como assim o nome indica, aborda temas como o conceito de beleza, a sociedade actual, o estereótipo e, ligado a este último, o preconceito.

Angela e Jane (que representam duas realidades distintas - a rapariga socialmente aceite e popular, de quem todos devem gostar e achar bela, e que, neste filme, representa toda a confiança baseada em ideias pré-concebidas, e a "outra", a que é esquecida e passa despercebida, não considerada bela dentro dos padrões sociais e que, apesar de se deixar influenciar pelo ambiente em volta dela, põe primeiro em causa determinadas ideias e está pronta para as por em causa se encontrar melhor justificação para as questões que a atormentam) conversam (numa das cenas do filme) acerca de um acontecimento recente - Jane encontrou o seu vizinho, Ricky, filmando-a, às escondidas. Nesta conversa, Angela, que conhece o rapaz há mais tempo, transmite a ideia de que é um maluco, esquisito e eventualmente perigoso, visto correr o boato de que foi para um manicómio, em tempos. Justifica este facto por achar que Ricky dizia coisas fora de contexto ou tinha atitudes estranhas ao habitual (note-se que Angela está durante toda a conversa a fumar um cigarro, forma de alcançar um “estatuto superior”). Jane, ao concluir que a justificação dada pela sua colega acerca do internamento é insuficiente, questiona-a. Para Jane, que adopta determinadas ideias sem sequer reflectir sobre elas, ao ver a atitude da amiga, que se preocupa em perceber a causa para o internamento de Ricky, tenta imediatamente afastá-la da ideia de tentar encontrar justificação para a “estranheza” do rapaz, dizendo-lhe que toda essa preocupação significava que gostava dele. Deste modo, assim que Ricky aborda Jane, esta já o está a julgar de forma negativa. No entanto, depois de uma pequena conversa, a rapariga parece achar fascinante toda a confiança que Ricky tem, que não se deixa abalar nem pelo que os outros lhe dizem nem pelos julgamentos que lhe são feitos. (De se notar, reforçando a ideia de que a beleza é um conceito pré-definido, que Angela não compreende o porquê de o rapaz não ter sequer olhado para ela.)
As mesmas personagens cruzam-se mais tarde noutra situação. No que parece ser o pátio da escola, Ricky está a filmar um pássaro morto. Não compreendendo as raparigas o porquê de tal atitude, justifica que o faz por ser belo a ave que ali encontrou.
Em suma, a ideia a destacar é de que, com vista a justificar o nosso mundo, tão complexo e diversificado, a sociedade forma determinados conceitos para responder a questões para as quais podíamos não ter resposta. Julgamo-nos sabedores do que é eticamente correcto e o que é aceite, o que é belo, o que é normal. Por isso, tendemos a crer que tudo quanto vai contra estes estereótipos, estas imagens que formamos ou que a sociedade forma e nós decidimos adoptar, está errado. Estamos demasiadamente reconfortados neste mundo que não nos faz pensar muito e por isso preferimos não nos “cansar” com questões que parecem já estar respondidas. O rapaz, insurgindo-se com ideias, maneiras de pensar e agir diferentes do comum, é julgado, fruto do preconceito de todos aqueles que, juntos, formam o que temos como sociedade. Os exemplos dados nestes vídeos de toda essa diferença em relação ao estandardizado e indiferença perante os julgamentos dos outros são as imagens que pare Ricky representam beleza, como um pássaro morto e a Jane. Assim como chegámos à conclusão em aula, este considera belo aquilo que se encontra perto de um limite. Do limite entre o tudo e o nada, o vivo e o morto. Aquele momento ou aquela linha que determinam um estado, os antagonismos entre vivo que está morto ou do morto que parece vivo.

Assistimos também a algumas conversas entre o severo Coronel Frank Fitts e o seu não preconceituoso filho, Ricky, já referido no meu post anterior. Destaco o tema "homossexualidade".
Como se vai percebendo, à medida que vamos assistindo ao filme, Frank é uma personagem que faz questão de demonstrar muita frieza e virilidade, e isso parece advir dos seus ideais adquiridos na tropa e nas suas experiências de vida. Por isso, como já seria de prever, adopta uma posição totalmente contra os homossexuais, chamando-lhes "panascas”. E não se contém nas suas críticas quanto à forma como se expressam, sem medos, afirmando apenas a sua opção sexual de uma forma tão natural como os heterossexuais. Aliás, a sua afirmação é o que mais critica, pois crê que se deve ter vergonha de se ser diferente do que é socialmente normal e aceite. Mostrar, sem problemas aparentes, o facto de se ser “gay”, é algo que parece não compreender. O seu filho, que, como vamos observando ao longo do filme, tanto ignora estereótipos, adopta uma posição diferente do pai, aceitando os “gays”. Isso é visível quando diz a seu pai que estes não têm vergonha de admitir a sua posição sexual pois “sentem que não têm nada de que ter vergonha”. No entanto, e querendo evitar conflitos com o pai (que, como já se sabe pelo post anterior, o internou num manicómio em tempos), volta atrás no que disse e passa a dizer exactamente aquilo que sabe que o seu pai quererá ouvir. No entanto, percebe-se que só volta atrás no que disse, pois mantém os mesmos ideais.

O culminar e a resposta para uma série de situações que não são completamente percebidas ao longo do filme surgem quando o viril e frio Coronel Frank Fitts beija o seu vizinho, que julgava “gay”. É aqui que nos apercebemos o porquê de tanta vergonha, de tanto ódio e de tanta reprovação. Vive num paradoxo que é o detestar e não compreender a homossexualidade e ser homossexual. E vive reprimindo essa ideia, fazendo de tudo para que todos se afastem da possibilidade de sequer pensar que, porventura, poderia ser “gay”. Depois do beijo, percebe-se os sentimentos de frustração e humilhação que o dominam, devido à vergonha, de admitir que é “gay” perante outro que não ele próprio, à desilusão, de se aperceber que não é correspondido, e à própria incredulidade do que acabara de fazer.